Sobre bons encontros e ambientes de confiança.

O olhar desconfiado sobre o mundo e as pessoas é uma característica que me acompanha há algum tempo. É comumente notado por pessoas que me são apresentadas e não sentem conexão ou receptividade instantânea. Após algum tempo de convivência, o sorriso fechado se afrouxa e o olhar desconfiado amolece… Mas essa mudança não vem de passe de mágica ou milagre. Assim como tantos outros olhares fechados que encontrei na vida, percebo que o mergulho da superficialidade para a profundidade de um encontro real exige ambiente de confiança, no qual os seres envolvidos possam, verdadeiramente, experienciar trocas significativas e a partir delas, crescer.

Estamos nos acostumando a viver em nossos ambientes de trabalho, de lazer e até mesmo em nossos círculos de amizade e afeto, com altos níveis de vigilância, julgamento e registro de nossos comportamentos. A espontaneidade é muito desvalorizada, pois o ser “eu mesma” passa, quase sempre, por uma longa avaliação interna do que esperam que eu estou permitida a ser. Tais avaliações nos endurecem, não permitindo no encontro com o outro contatos menos rasos, como conversas acaloradas, compartilhamento de problemas, pedidos de ajuda, e, claro, o contato físico com o ser humano. É notável que ao abraçar alguém, os abraços são rápidos, nervosos, quase impossíveis de suportar. Afinal, quem aguenta tanta intimidade – a cola entre dois corpos – com um estranho? Ao mesmo tempo, com facilidade e intensidade, “rasgamos” elogios e fazemos promessas de amizade eterna, marcando sempre aquele reencontro para conversar mais. Que nunca acontece.

Como podemos fugir das armadilhas da superficialidade e construir relações mais reais e potentes? Para o filósofo Spinoza, um bom encontro é aquele que produz energia de vida, que potencializa nosso ser e agir no mundo. Os bons encontros produzem afetos ativos, que marcam nossas vidas profundamente, que nos cativam e cuidam a nossa existência. No encontro que potencializa a vida, os seres estão compondo uns com os outros, de modo não competitivo, mas cooperativo. Para Espinosa, quando aumentamos nossa potência de existir, aumentamos também nossa potência de sermos afetados.

Para a filósofa Regina Favre, essa potência do existir e de afetação está no processo sócio-biológico do corpar, ação contínua que acompanha toda nosso desenvolvimento. O verbo corpar  se faz sempre no presente e em conjunto com outros corpos, porque não estamos sozinho e nem mesmo “soltos” no universo. Afetamos e somos afetados, construindo juntamente aos outros e ao mundo, nossas existências singulares. Somos designs vivos, isto é: temos forma que aprende, se adapta, constrói. O design vivo se desenvolve em todos os ambientes, mas é naqueles em que a presença está ligada à confiança neste ambiente que nos conectamos, produzindo novos comportamentos e formas de prosseguir na viagem da vida.

O sorriso afrouxado e o olhar amolecido é encontrado nestes ambientes de confiança, nos quais consigo ter bons encontros, aumentar minha potência de vida, me deixando afetar e consequentemente, afetando outros. No encontro com o outro, co-corpamos e nos ensinamos a prosseguir. Habitar o presente, conectada com formas potentes de existir, dá força para continuar na dura caminhada da vida. Que possamos construir entre nós mais ambientes confiáveis… e que celebremos e cuidemos dos bons encontros!

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